quinta-feira, julho 17, 2008

Indiana Jones e a cerâmica de marajoara





Tinha tudo para ser uma quinta-feira como outra qualquer, a não ser pelo fato de que ela queria dormir um pouquinho mais e tinha que fazer uma ligação telefônica para os Estados Unidos.

Como de costume, e por ser um dos seus hobbies favoritos, ela se levantou e foi logo iniciando uma faxina na casa, depois de tomar seu café da manhã.
Lavou a louça do café, tirou o pó de seus poucos móveis, comprados com o fruto de seu trabalho, e varreu a casa, preparando o chão para o pano molhado.

Ela arredou a cama, equilibrou as cadeiras em cima do sofá e lá se foi, passando o pano aqui e acolá, ao som de Norah Jones, permitindo que seus pensamentos viajassem livres pelos arredores da casa.

Porém, aquela aparente tranqüilidade estava com os minutos contatos... assim que começou a passar o pano, percebeu que o pó ainda existente no chão começou, freneticamente, a se enrolar no próprio pano, ora ficando nos cantos das paredes, ora se desenrolando no chão...

Aquela situação de sujeira vem, sujeira vai, começou a irritá-la profundamente e, num momento de fúria, ela lançou o rodo com toda força no chão, no intuito de se livrar daquela poeira molhada, mas sem querer empurrou a mesa, que equilibrava um belo vaso de cerâmica de marajoara...

Naquele instante, foi como se o Indiana Jones tivesse tomado conta de seu espírito, e ao som do tã tã tã rã, tã tã tã, tã tã rã tã tã tã, ela empregou todos os seus esforços em direção ao vaso, que estava prestes a cair no chão e se quebrar em mil pedacinhos.

Durante a tentativa de chegar ao outro lado da mesa e salvar a cerâmica de marajoara, eis que ela escorregou no chão molhado, tropeçou o cotovelo esquerdo na mesa e, quando já não tinha mais esperanças de salvar aquela relíquia, adquiriu forças sobrenaturais e, enfim, agarrou com toda a proesa de uma aventureira, aquele patrimônio histórico e cultural, recentemente trazido do Pará.

Com o vaso - e o coração - na mão, respiração ofegante, chão molhado, cotovelo latejando, ela pensa: “definitivamente colocarei em pauta a possibilidade de contratar uma faxineira, caso contrário, irei ligar para o George Lucas e ver se tem lugar pra mim no Indiana Jones 5”.


E chega de emoções fortes por hoje.

sexta-feira, julho 11, 2008

Satiagraha, Gandhi & George Orwell

O artigo abaixo, de autoria de Douglas Fischer, Procurador Regional da República na 4ª Região (Porto Alegre), sob o título "George Orwell salvou Dantas?", trata da decisão do Supremo Tribunal Federal que determinou a soltura do banqueiro Daniel Dantas.

Manhã do dia 10 de julho de 2008. Manchete do jornal: “Supremo manda polícia soltar banqueiro Dantas”. Voltarei ao tema. Preciso antes compartilhar outros fatos com o leitor.
Atuando num processo ano passado, com réu condenado, vi uma colega Procuradora da República recorrendo para absolver um réu acusado de pequeno tráfico de entorpecentes (ela o havia denunciado, mas concluiu não haver provas para a condenação no curso da ação). Sim, leitor, o MP deve atuar em favor do réu também se assim entender. É o que determina a Constituição. Dei parecer favorável. A condenação foi mantida.

Não discuto aqui a decisão que manteve a condenação: há se respeitar o entendimento do Poder Judiciário. Mas eu recorri a favor do réu ao STJ. O recurso foi admitido. Contudo, demora. Como demora. Porque ainda preso o réu, resolvi entrar também com um habeas corpus a favor dele no STJ (sim, leitor, o MP também pode entrar com habeas corpus a favor de réu para beneficiá-lo).

Eu entendia que sua prisão (já há quase 2 anos) não tinha fundamento jurídico (até porque o MP recorrera pedindo sua absolvição). A liminar foi indeferida. Passaram-se mais alguns meses.

No interregno, Natal, final de ano, férias, praia para alguns. Para outros, sol – quando muito – “quadrado”. Invocando precedente do próprio STF (aquele que serviu para a soltura de Flávio Maluf e, depois, de seu pai, Paulo), “ousei” impetrar um novo habeas corpus, agora no STF. Isso já era março de 2008. Havia pedido liminar para a soltura do réu. Nada. Pedi novamente a concessão da liminar. Nada. Em 20 de junho (mais de três meses depois) sai finalmente a decisão do relator: o habeas corpus é indeferido de plano. O argumento: não haveria a flagrante ilegalidade e o outro hábeas, aquele perante o STJ, estaria para ser julgado em breve. Ah, bom!

Daniel Dantas havia ajuizado um habeas corpus contra a investigação que se fazia contra ele no TRF em São Paulo. Queria um salvo-conduto, como se fala no juridiquês. Não ganhou a liminar. Impetrou outro habeas no STJ. Não ganhou novamente a liminar. Foi ao STF. Mais uma vez, liminar indeferida. Aí vem sua prisão temporária, que o levou para o cárcere dois dias atrás.

Atente-se: o fundamento era novo porque havia um fato novo, que não era objeto do habeas então ajuizado. Em vez de impetrar (como seria o correto) novo habeas corpus no TRF em São Paulo, atacando a decisão do juiz que decretou sua prisão (art. 108, I, “d”, da Constituição), foi “direto” ao STF, pedindo ampliação do pedido do habeas que lá estava. Não podia. Hipótese “per saltum”, como também dito no juridiquês. Mas a liminar foi deferida, pouco mais de 24 horas depois da prisão.

Está solto, diz a manchete do jornal. Não há espaço para contra-argumentar o equívoco, em meu modesto juízo, da soltura de Dantas. Não contesto também, nem indiretamente (que fique em claro), a honorabilidade de quem o soltou. Longe disso.

Mas quem talvez não deva estar entendendo nada é aquele preso para quem impetrei os habeas corpus e que continua preso se souber da manchete dos jornais de hoje.

Diante de tudo, lembro de um dos mandamentos da sátira de George Orwel em sua Revolução dos Bichos: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros”.

Satiagraha (nome da Operação) define a linha de ação de Gandhi na sua luta pela independência da Índia (Gandhi e Orwell eram indianos, por coincidência).

Dantas é grato a seus advogados, certamente. Mas a estas alturas, por paradoxal que seja, já deve estar acendendo velas para George Orwell. Isso se o vento que corre solto no alto de sua cobertura na beira-mar do Rio de Janeiro permitir.


(Obs.: os verdadeiros parques de diversões no Brasil ficam em Brasília?)

quinta-feira, julho 10, 2008

A Disneylândia e os três patetas

Para os adolescentes, viajar com o papai e a mamãe pode ser uma tarefa árdua, chata e cansativa, pois na cabeça deles é um tempo perdido que poderia estar sendo gasto com os amigos ou, na melhor das hipóteses, com a internet.

No meu caso (tudo bem, já não sou mais adolescente, mas faz bem pouquinho tempo), viajar ao lado do Avo e da Beth é sempre uma aventura inusitada, repleta de gargalhadas e gafes, das quais eu não me privo por nada nesse mundo. É como estar contracenando no “Toma-lá-da-cá”, ou revivendo os melhores momentos do “Sai de Baixo” e da “Família Buscapé”.

E foi numa dessas comitivas familiares, em busca do visto americano, que eu, o Avo e a Beth nos deparamos com uma verdadeira Disneylândia em plena São Paulo, dentro do Consulado Americano.

Mas não, não encontramos Mickey Mouse, a Minnie ou a Cinderela cantarolando e caminhando dentre os mil e quinhentos brasileiros que passam diariamente pelo consulado, ansiosos por um “ok, you can pass”. Estávamos nós lá, os três patetas, gastando uma fortuna com passagem aérea, hotel e táxi, tudo para reviver o sonho brasileiro de passear pelos Estados Unidos novamente, algum dia desses.

O fato que nos comoveu em risos é que, quem conhece os parques da Disney, sabe que os seus corredores com vastos corrimões são hiper organizados com setas indicativas pintadas de amarelo no chão (nem cego se perde por lá), câmeras filmadoras por toda parte, guichês com vidros à prova de balas (lembrando que os maiores maníacos do mundo são americanos) e potentes microfones, atendentes very well qualificados e a certeza de que no final tudo se resume a um lanchinho no McDonald´s - ou seja, com exceção da inexistência de um point do Mc dentro do consulado, todo o resto é igualzinho aos parques da Disney, inclusive a sua participação (em dólar), toda especial...

Por outro lado, quem for ao Consulado Americano de São Paulo vai perceber que lá a hora marcada é respeitada, a fila é organizada de forma que cada um vai pulando de banquinho em banquinho até chegar a sua vez de ser chamado, num espaço freneticamente organizado para alocar muitas e muitas pessoas, mesmo que à primeira vista pareça que só cabem 20 pessoas. Mas como a movimentação diária é grande (em torno de 1500 pessoas por dia) e são apenas 87 funcionários no total (sendo que nem todos atendem ao público), prepare-se para iniciar a leitura dos famosos volumes de J. R. R. Tokien, J. K. Rowling, etc., ou se aventurar pelo maravilhoso mundo brasileiro, daqueles que sempre encontram um jeitinho de correr na frente dos outros e ainda reclamam da fila.

Dica: se tiver algum idoso na sua família, ou seja, alguém com mais de 60 anos, faça o pedido de visto em grupo familiar (todos da família são atendidos em conjunto), pois os idosos possuem preferência e lá isso é muito respeitado.

O mais divertido mesmo dessa aventura até o consulado foi a tentativa frustada, minha e do Avo, de conter as gafes da Beth em frente ao atendente americano.
Quem poderia imaginar que agora as digitais são colhidas de forma eletrônica e não mais com as pontas dos dedos pintadas? Ou seja, existe uma máquina em que tu deslizas os teus dedos e pressiona as pontas, quando então todas as luzinhas piscam, indicando que as tuas digitais foram “scaneadas”. Se uma das pontas dos dedos não está pressionada de acordo, uma das luzes não se acende, indicando que os mesmos devem ser pressionados novamente.

Eu e o Avo, prevendo que ficaríamos horas se a Beth fosse a primeira a “scanear” as digitais, a deixamos, propositadamente, para o fim da nossa fila privada (já que estávamos em grupo familiar).
Pois não é que o atendente chama ela primeiro...

Óh céus!

Eu e o Avo, depois de passarmos 2h explicando o funcionamento tecnológico da coisa (enquanto estávamos sentadinhos, aguardando sermos chamados), passamos por mais essa: quinze longos e demorados minutos, de muita tensão e riso contido (já que não podíamos, simplesmente, cair na gargalhada em frente ao atendente americano, o qual poderia não nos conceder o visto por debilóidice).


Enfim, nada como viajar com o Avo e Beth e conhecer o mundo fantástico das gargalhadas sem limites e das gafes, agora também internacionais!

quinta-feira, junho 12, 2008

Dia dos namorados? Quando?

Arram, talvez o post do dia 27/03 fosse suficiente para o dia de hoje, mas não podia segurá-lo por tanto tempo assim...

Mas assim óh, dia dos namorados é TODO DIA ÚTIL, FERIADO, SÁBADO e DOMINGO, desde que se esteja embaralhado por alguém que corresponde à altura.

Hummm, tipo assim...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses todo nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha...


(Florbela Espanca)

P.S.: devolvendo a poesia, com a mesma alegria.
Atualizações, hein?

Tá bem, eu confesso.
Enrolei, enrolei, enrolei e nada de blogar por aqui.
Mas vamos lá então.
Foram tantas coisas que aconteceram ao longo do tempo, após o último post, que nem sei por onde começar.

O fato é que pelas minhas andanças por aí, descobri dois lugares ímpares no Brasil, passíveis de visitação: Belém, no Pará, e Boa Vista, em Roraima. Nem vou falar na minha rápida passagem pela Venezuela, pois não encontrei nada de mais por lá... porém, qualquer indiada sempre é bem vida, ainda mais se está com os dois afilhados.

Belém é uma cidade úmida e quente, típica da região amazônica, localizada na Baía do Guajará, habitada por mais de 1 milhão e 400 mil pessoas. A capital é tão agitada como Porto Alegre, mas um pouco mais violenta, sendo que prepondera no povo de lá a mescla de várias etnias (resumindo: é índio misturado com todo mundo – japonês, alemão, inglês, grego...).

Lugares imperdíveis: Estação das Docas (porto às margens da Baía do Guajará – estilo porto da Av. Mauá, em Poa), Mercado Ver-o-peso (foto abaixo), Pólo Joalheiro, Mangal das Garças, Casa das 11 Janelas, Cerâmicas de Icoaraci,
Boteco Daqui (simpático barzinho local).





Por outro lado, Boa Vista, que fica lá no topo do mapa do Brasil, capital de Roraima (e não de Rondônia, como pensam alguns), localizada ao norte da linha do Equador, possui aproximadamente 250 mil habitantes. Sim, é uma capital pequena, pacata, nova e com planejamento urbano moderno, sendo que no princípio era habitada apenas por índios.

Lugares imperdíveis: Praça das Águas, Casa das 12 Portas (não é sacanagem não, em Belém encontrei a Casa das 11 Janelas e em Boa Vista essa aqui), Portal do Milênio, Monumento ao Garimpeiro (foto abaixo), Palácio da Cultura Nenê Macaggi, casa dos meus afilhados (diversão na certa).





A parte legal de viajar é sair de casa com a mente aberta a novas experiências, principalmente a novas culturas e gastronomia, a serem encontradas até mesmo dentro da mesma pátria.
As coisas que mais me chamaram a atenção lá pra cima foram: a imensidão da Floresta Amazônica; os diversos tipos de sementes, frutas e peixes de água doce (imperdível também é comer caranguejo com farofa); e o fato de que os índios (aqueles que vivem pelados e pintados no meio da mata, que sobrevivem apenas da caça e das frutas e falam “uga uga”) quase não existem mais – o que existe são índios já brancos, vestidos, usando celulares, morando em casas de cimento e recebendo “cestas-básicas” do governo (essa, sem dúvida, foi a parte triste da viagem).


Mas nada como estar de volta ao solo gaúcho, comer um churrasco do Avo, um doce de Pelotas, uma cuca de Santa Cruz do Sul e me aquecer nos braços do meu amor.
Uia, tchê!

quinta-feira, março 27, 2008


TER OU NÃO TER NAMORADO??? EIS A QUESTÃO... (por Carlos Drummond de Andrade)


Quem não tem namorado é alguém que ficou de férias de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro.
Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvens, guindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme e sua frio quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira; basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem um amor; é que não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes; dois paqueras; um envolvimento e dois amantes; mesmo assim não tem um namorado.

Não tem namorado que não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria e drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pactos com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida ou impossível de durar.

Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem rasgada; de ânsia enorme de viajar para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarradinho, fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos deles, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d´água, show de Milton Nascimento, bosques, temas de sonho, ou musical do metrô.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, que não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato do seu amado ser paquerado. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente, no fim de semana, na madrugada ou no meio dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pensando duzentos quilos de grilos e de medos, ponha a saia mais leve, aquela linda e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança, de alma escovada e coração estourado. Saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.

Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ame como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido;

ENLOU-CRESÇA.

terça-feira, março 11, 2008

O suntuoso GiganTHe...

Não, o post de hoje não irá retratar o glorioso GIGANTE DA BEIRA-RIO, palco de muitas emoções em 2006 e 2007 (Libertadores e Recopa – chorem gremistas), estádio inaugurado às margens do Rio Guaíba em 06 de abril de 1969 (tudo bem, sequer eu estava nos planos de nascimento naquela época).

Enfim, o GiganTHe a que me refiro é outro, bem mais pomposo (no que se refere à escrita do nome) e um tanto quanto hilário. Fica no interior do Vale do Rio Pardo, mais precisamente na cidade das cucas.
Quem nunca foi morre de vontade de ir; quem sempre vai, não recomenda, pois não quer ser pego no flagra dançando bailão com a atendente da loja de cosméticos, prima-irmã da vizinha de sua namorada...

Como exclamou um torpedo renaultiano: “Que saudades da vida no interior!

Pois então.
O lugar é muito mais fino e chique do que o nostálgico BEG (Bailão Estrela Gaúcha) – palco de muitos encontros camuflados após uma ida inocente ao Tulha nos domingos (quem nunca foi lá que atire a primeira pedra).
Frise-se que a decoração do GiganTHe é impecável: CDs pendurados no teto, os quais de quando em quando refletem as luzes coloridas do globo giratório... uma maravilha (quem teve essa [in]feliz idéia?)!

As pessoas que freqüentam o lugar são da mais baixa
à mais alta classe social da região: desde aquela atendente da loja de cosméticos até o empresário de sucesso do fumo – o que torna o lugar uma verdadeira arena democrática ("... do povo, para o povo").

Não importa o traje: calça semi-begue, tênis, sandália plataforma, mini-saia, salto alto, camisa de seda, camiseta de física, boné, terno, vestido longo – a moda é ser tu mesmo (ainda que vestindo roupa de marca que não passou no teste de qualidade, vendido no PO – Palácio de Ofertas).

O embalo da noite ficou por conta da famosa Banda “Brilha Som”, que tocou ssuccccéééssoss como (olhem que letras românticas e incríveis):

- “Cama Vazia” (... Mas esse orgulho bobo é mais forte e não vou te procurar/Preciso te esquecer e desse sonho acordar...);


- “Outdoor” (... Pega o telefone, liga pro seu homem, ele ainda te ama/Manda um recado num carro de som, reacenda essa chama/Escreve o nome dele num outdoor bem grande, te amo, te amo/Manda uma mensagem pro seu celular, você é um anjo...);

- “A Lua e a Noite” (... Mas voltei/Galera estou aqui de novo/Voltei pros braços do meu povo/Achei o rumo da estrada/Me encontrei/De volta estou pras madrugadas/Igual a lua e a noite/Que morrem sempre abraçadas);

- “Fica Comigo” (... Já faz tempo que gosto de você/Você é esnobe nem de mim quer saber/Fiquei na deprê, apaixonado por você...).

Tá bem, deu de breguice por hoje.
Quando vierem me visitar, prometo que incluo no pacote uma aventura no GiganTHe da cidade das cucas - imperdível diversão!

quinta-feira, março 06, 2008

Tropeços no trabalho – parte I (com adaptações)

Toc, toc, toc

- Com licença, Dra.
- Pode entrar.

O estagiário, bem apessoado, cabelinho bem cortado, vestindo calça Ellus e camiseta Coca-Cola, ingressa na sala de sua chefe, carregando uma dúvida, referente à tarefa anteriormente repassada a ele.
Educadamente, como forma de introduzir o problema, ele pergunta:

- Como está a senhora?

Calmamente, ela olha para ele (um rapaz de 1m86cm) e responde:

- Melhor agora...

Dois segundos de silêncio. Será que o estagiário ouvira bem?
Logo em seguida, a chefe completa:

- Melhor agora, que a dor do dente passou... qual é a dúvida?

O estagiário, depois de ficar rosado (por ter pensado bobagem), se embaralha com as palavras, mas mantém uma sutil cara de paisagem, como se nada, nada mesmo, tivesse passado por sua mente masculina.

Tropeços no trabalho – parte II

O funcionário responsável pelo cargo de motorista leva sua chefe até uma reunião de trabalho. No caminho, durante aquelas conversas banais de como está o tempo, será que o preço da maçã vai aumentar, já terminaram de construir aquele prédio da esquina, etc, a chefe comenta sua apertada agenda nas próximas semanas.

- Então, Dra., a senhora vai viajar bastante essa semana, não?
- Pois é, estou cheia de trabalho. Irei aqui, ali e acolá. Estou bem arrumada, não?

O motorista, natural de Goiás, dá uma olhada para sua chefe (de cima a baixo) e desabafa:

- Olha Dra., a senhora está muito bem com essa roupa, eu gostei.

Um pouco constrangida, mas sorrindo educadamente, a chefe fala:

- Estava me referindo a estar bem arrumada de tanto trabalho...

terça-feira, março 04, 2008

Boa noite, cinderela!

Quem não conhece pelo menos um famoso "conto-do-vigário"?
Bilhete premiado, moeda falsa, golpe do seguro, golpe do empréstimo, ou, simplesmente, o "boa noite, cinderela"...


Pois então...
No último sábado pude observar de perto como esses espertalhões agem no caso do "boa noite, cinderela".

Primeiro eles incentivam a moçoila - indefesa - a ingerir uma quantidade alta de bebida - a qual ela não está acostumada, por óbvio.
Depois, prometem que vão cuidar dela caso ela passe um pouquinho da conta, naquele sutil blá blá blá de "super proteção".
Por último, usam de um artifício ardil subliminar, que faz com que ela tenha a iniciativa de convidar o bandido para dançar uma música lenta... (há toda uma estratégia montada por trás)
E aí já viu, né.

Depois da música lenta, já era.
Não tem mais volta, nem com "desapagador" de memória do MIB.

Muito cuidado!!!

terça-feira, fevereiro 12, 2008


Refúgio a 300m

Os caminhos que percorro, de quando em quando, na estrada, mostram uma placa que diz assim: "Refúgio a 300m".
Será que o "refúgio" significa um local seguro para parar?

Estou tentando me refugiar em "A Náusea".
Meio paradoxo, mas...
O problema é que o tempo têm me roubado esses momentos de refúgio!

"A Náusea" é o primeiro romance de Jean-Paul Sartre, um dos maiores escritores do séc. XX.
O livro conta a história de Antoine Roquentim, historiador de 35 anos que se refugia na província de Bouville para escrever a biografia do Marquês de Rollebon.
Dentre outros personagens há a figura de um autodidata, que se dedica a ler toda a biblioteca municipal, em ordem alfabética, por autores.
E claro, como todo romance há uma mulher, a Anny.


Às vezes a estrada toda podia ser um grande refúgio... que podia findar logo lá...




sexta-feira, janeiro 25, 2008


Tempo, tempo, tempo



24h não têm sido suficientes.
O tempo vem rasgando o som, manchando a cor, embaralhando o amor.
Atividades, pensamentos, sentimentos - todos comprometidos pela ausência do tempo.
E quem o organiza?
O relógio...?
Doce "tic tac" da vida, preso às horas, aos minutos, aos segundos.

Pessoas vêm e vão.
Deixam algo de si.
Levam um pouco de nós.

E como diz o poeta:
"Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!"

Organiza-se uma coisa aqui, pinta-se uma parede ali.
Desliga-se a TV, abre-se um livro.
Vive-se o amor, sonha-se acordado.

Para tudo um tempo.
Para sempre, cada dia.



domingo, janeiro 13, 2008

Cultura de botequim: os tropeços e enganos dos provérbios populares

Soa engraçado e fascinante, mas o telefone-sem-fio ao longo de muitos séculos conseguiu manter vivos muitos provérbios populares.
Tudo bem, nessa viagem intertemporal muita coisa se perdeu... e foi "recriada".
Nas andaças por esses botequins da vida acabamos aprendendo muitas coisas!
Por exemplo:

"Quem tem boca... vai a Roma..."
"Cuspido e escarrado..."

Quem nunca os ouviu por aí?
Pois então... estão certos ou estão errados?
Não se choquem... mas estão errados.

(tudo bem... eu confesso, um dia eu acreditei que eles estavam certos... mas não contem a ninguém!)

"Quem tem boca, vaia Roma..."
"Esculpido a carrara..."

E os significados?
Ah, teremos que continuar a discussão de botequim, no botequim... as interpretações foram as mais variadas e divertidas!

segunda-feira, janeiro 07, 2008


Feitoooo!!!



A um ausente
(Dedicado ao querido vô Oswaldo - 1 ano em outro plano astral)

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompestee sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,

enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, janeiro 03, 2008

Sobre os ventos de ontem...

O ano de 2007 foi um importante ano na minha vida.
Sei que deixo pouco de mim pelo blog... algumas sensações, poesias, histórias, palavras soltas, sem muita cumplicidade.
É sempre importante registrar fatos, momentos, sentimentos - a vida em si.
O vento pode levar muita coisa, mas ele não consegue levar embora uma cena gravada no coração, uma gargalhada bem dada em reunião de família, um passeio pelas luzes do Natal de Gramado, uma visita silenciosa ao Templo Budista, um mergulho aventureiro durante um rafting.
Igualmente, o vento não pode levar uma última reunião anual de um quarteto fantástico, um beijo roubado, os pés tocando a areia macia de Garopaba, a doce brisa da Gamboa, as lembranças das aventuras de um ano que passou, os sonhos que se formam durante um espetáculo particular de fogos de artifícios.

Que os ventos de hoje e de amanhã sigam a iluminar e a emocionar o caminho a seguir.

O QUE O VENTO NÃO LEVOU (por Mário Quintana)

“No fim, tu hás de ver que as coisas mais leves são as
[únicas
que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...”

quarta-feira, novembro 14, 2007

Inveja branca de Nietzche...

Grande filósofo, amigo da natureza, da arte e do conhecimento.
Alguém com uma capacidade muito grande de compreender e expressar as coisas da vida através de palavras exatas...
Muitas pessoas talvez busquem dois terços de sua sabedoria, mas tenho cá minhas dúvidas: acho que dois terços vivenciando capiciosamente cada segundo de suas palavras já era uma, não?
Quantas vezes saímos desatinadamente caminho afora?
Nossa... sem pressa, amigo.
Volte às bases.
Volte-se aos sentidos.
E se nada fizer sentido, busque a leveza.
Pois "uma coisa é necessário ter: ou um espírito leve por natureza ou um espírito 'aliviado' pela arte e pelo saber".

Liberdade?

"Todos os homens, de todos os tempos, e ainda os de hoje, dividem-se entre escravos e livres, porque quem não dispõe de dois terços do próprio dia é um escravo, não importa o que seja de resto: homem de Estado, comerciante, funcionário público ou estudioso."

Palavras de Friedrich Nietzsche.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Poesia roubada...

"Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!"

Fernando Pessoa