quinta-feira, agosto 21, 2014

Treze semanas com Ele

Muito ouvi falar quando estava grávida: “quando nasce um bebê, nasce uma mãe...”;“é o verdadeiro amor incondicional...”; “é maravilhoso ter um filho...”; blá blá blá...

Não se iludam, minhas queridas.
Quando nasce um bebê, as cores da vida mudam de tonalidade.

As ruas, embora continuem as mesmas de antes, se transformam em caminhos desconhecidos e incertos. Já não sabemos se estamos acordadas ou se estamos dormindo, como em um sonho interminável. Os músculos, cansados e por vezes incansáveis, atingem seu ápice de existência, a fim de que fique bem claro que somos meros mortais. O surgimento de uma nova vida requer mais VIDA.

Ninguém, mas ninguém comenta os detalhes dessa nova fase. Apenas ouvimos: “é cansativo, mas recompensador”. E pesquisas apontam que 90% das mulheres mentem quando dizem que está tudo bem nos primeiros meses, quando na verdade não está. Por mais que se leia milhões de livros, se faça milhões de cursos, apenas milhões de práticas é que vão te dar alguma segurança.

O Gabriel veio assim, sem hora marcada, às 2h30min do dia 16.05.2014, após a minha chegada às 23h30min no hospital, sem qualquer glamour (a bolsa já havia estourado em casa e estava literalmente com uma toalha enrolada nas pernas). Sem cabeleireiro, sem maquiagem e sem filmagem hollywoodiana o guri veio ao mundo de parto normal, pesando 3.400gr e medindo 50,5cm.

Foi uma experiência única e fantástica. Mas não desceram do céu coraçõezinhos vermelhos que enfeitariam o momento ao som de uma música emocionante. Não. Foi ao som de um tímido choro e das vozes da equipe médica que uma extensão de mim, totalmente desconhecia, ganhava vida fora da barriga. Era um serzinho todo enrugadinho, assustado e com frio, que apontava no canto da sala e que veio parar no meu peito.

E foi a partir desse momento que a loucura toda começou.
Não posso me queixar do parto, foi tudo muito rápido, tranquilo e sem dor, sendo que seis horas depois eu já estava tomando um banho, recarregando as energias e me preparando para a minha nova profissão.

Mas a realidade é nua e crua: o primeiro mês é um massacre.
O corpo está se recuperando de um furacão de hormônios e temos que ter paciência para aprender a amamentar, trocar fralda, vestir e dar banho, isso tudo ficando horas sem dormir direito. Sem contar quando o bebê é sensível e chora muito ao ficar sem roupa na hora da troca de fralda e do banho.

Depois, começam os movimentos intestinais do bebê, ou as famosas “cólicas”, o choro intermitente e angustiante, que faz qualquer mulher pensar por qual motivo mesmo tinha engravidado, suplicando sua vida de antes de volta. Veja bem: inexiste amor incondicional, borboletas ou trilha sonora romântica. E é um luxo quando conseguimos tomar um banho mais demorado e fazer as unhas. Há também quem sofra com a amamentação, quem não tenha leite ou que fique baby blues (que tem depressão pós-parto).

Mas atenção, isso não quer dizer que tu deixas de gostar mais ou menos daquele serzinho, tão carente de amor e cuidados. Só que no início não é essa delícia toda. O peso da responsabilidade pertence unicamente a ti. Às vezes algumas mães têm sorte, possuem um bebê anjo, outras possuem um bebê enérgico ou sensível demais.

Verdade seja dita: não é fácil cuidar de um recém-nascido, e depois que constatei isso na pele, passei a admirar muito mais as minhas amigas que são mães solteiras. E também passei a admirar a minha mãe, a minha sogra e as minhas tias, que naquela época por mais maridos que possuíssem, os mesmos não pegavam nem os filhos no colo. Um bom pai (e marido) é aquele que participa de igual pra igual, sem fugir da raia. E confesso: tive muitas saudades da minha vida antes do Gabriel e das minhas oito horas de sono.

Mas é a prática quem te ensina. Mesmo assim, compramos dois livros na segunda semana de vida do Gabriel, quando a choradeira começou e a gente ficou meio assim, sem ter a menor noção do que fazer, a não ser ligar pra pediatra. Os livros são de autoria de TRACY HOGG, a famosa “Encantadora de Bebês”, um de capa azul - “Os segredos de uma Encantadora de Bebês”-, e o outro de capa rosa - “A Encantadora de Bebês resolve todos os seus problemas”.

Pra mim foram a salvação da pátria. Passamos a observar o pequeno Gabriel quando estava mamando, quando estava trocando fralda, tomando banho, fazendo alguma atividade e dormindo, e mapeamos as crises de choro. Se era fome, sono, desconforto, gases, etc. A Encantadora estabelece uma rotina para o bebê, a qual chama de EASY, para que ele se sinta seguro e para que a supermãe possa descansar, tomar um banho, fazer as refeições e, porque não, namorar.

E quando estamos a ponto de pular pela janela feito loucas, entra o segundo mês. As olheiras já se incorporaram ao teu olhar, o corpo já se acostumou a carregar peso e a manejar o bebê. Aprendemos a fechar os ouvidos na hora da choradeira e a ter uma paciência nunca antes vista na vida. São os instintos de mãe aflorando dia a dia.

E um belo dia, o bebê que mau te enxergava e apenas sentia o teu cheiro e reconhecia a tua voz passa a te olhar nos olhos e a sorrir. Sim, sorrir. E começa a emitir sons engraçadinhos como quem estabelece uma conversa gostosa até surgirem gritinhos felizes.

Aqui esquecemos toda a trabalheira do primeiro mês, porque há um retorno de todo aquele cuidado e atenção, há uma relação mais íntima, mais profunda, naturalmente mágica. E o cheiro do bebê... ah, o cheiro do bebê, é viciante. E nesse mês eu entendi porque 99% das mães com quem eu conversei não se lembram de ter passado tanto trabalho, a ponto de já terem tido mais filhos.

Entra o terceiro mês e já estamos mais no “piloto automático”. Já conhecemos as curvas da estrada, as intempéries e já somos capazes de identificar o que está incomodando os nossos pequenos, a ponto de sorrirmos enquanto eles choram. As coisas começam a se organizar e a fluir com mais segurança, e não é que a gente esquece mesmo o primeiro mês e já passa a planejar o segundo filho, pois não tem como não se derreter a um amor correspondido. Nada bate a sensação de uma mãe poder nutrir o seu próprio filho e vê-lo se desenvolver feliz.

Mas é preciso coragem, paciência e perseverança.

É um caminho sem volta e que pode ter vários sabores: vai da loucura do caos ao verdadeiro mistério do amor de uma mãe por um filho, e vice-versa.


terça-feira, maio 13, 2014

A vida em semanas

Eu nunca imaginei que estabeleceria alguma ligação com a contagem do tempo em semanas, até ficar grávida. E acreditem: não se trata de simplesmente “contar” o tempo. Se trata de “viver”, semana a semana, com uma expectativa totalmente diferente de tudo o que já se viveu até então.

Há quem diga que é absolutamente normal uma mulher estar grávida e só descobrir a “mudança” quatro ou cinco meses depois. Eu diria que isso é papo pra novela das oito, porque desde o início de tudo, eu senti algo “diferente”.

Realmente não há como descrever com palavras. As mulheres que passaram por isso tem experiências próprias, sentimentos únicos, momentos mágicos. Cada uma se emociona ao seu tempo, na sua intensidade, na grande transformação que toma conta do ventre e vai preenchendo, semana a semana, a alma da gente.

Uma pena que os homens jamais terão qualquer noção do que acontece, embora sejam ótimos fantasiadores. E mesmo que uma mulher nunca venha a experimentar a sensação física, tenho certeza que ela sempre entenderá a mágica que existe, mesmo que apenas adote um ser humano. Gravidez é papo de mulher, está no nosso íntimo, até mesmo quando, por um motivo da natureza, não acontece.

É incrível como um sentimento, seja ele só de prazer, seja ele só de amor, ou seja ele de prazer e de amor, é plantado e vai crescendo em uma velocidade incrível, até aparecer um botãozinho, um feijãozinho, um serzinho.

Semana a semana é a contagem técnica da medicina, que começa bem antes da concepção propriamente dita, exatamente no primeiro dia da última menstruação da mulher. Na minha cabeça uma contagem maluca, pois seis semanas de gestação correspondem a duas primeiras semanas antes da concepção mais quatro após a concepção. Pra entender mais sobre isso, é só dar uma lida aqui.

Mas o legal da nossa globalização é que existem sites interessantes que te ajudam a compreender e a conhecer semana a semana da gestação. Por indicação de amigas me inscrevi em dois: a) BabyCenter; b) Guia do Bebê.

Nesses sites, dá para ter uma ideia da transformação semanal dentro do útero, dos próximos passos, entender outras mulheres no mesmo período, trocar experiências, mas a maior dica de todas que eu dou é a seguinte: compartilhe dúvidas, receba orientações e troque ideias com um profissional competente - o seu ou a sua médica. Ninguém mais, ninguém menos.

Assim que as pessoas ao seu redor souberem que estás grávida, esteja preparada. As transformações físicas e psíquicas internas são fantásticas, pois elas acontecem só pra ti e ninguém as julgará ou tomará conta delas, a não ser que tu as externes.

Contudo, são infinitas as dicas do que comer, de como dormir, de como se vestir, como cuidar dos seios, das estrias, evitar inchaços, blá blá blá. No mesmo dia, várias pessoas vão dizer coisas totalmente opostas, como se fossem verdades seladas. Não caias nessa. Apenas sorria e agradeça. Mais tarde, virão as histórias trágicas, porque o ser humano adora fazer uma tortura mental com os outros, principalmente com as pobres das grávidas.

Embora pareça que a gestação passe rápido, as coisas se desenvolvem em três grandes tempos: os trimestres.

O primeiro trimestre compreende o primeiro ao terceiro mês. Aqui, tem gente que tem cólica, sangramento e enjoo. Outras não tem nada e é uma fase gostosa, pois não há ainda o peso da barriga e a locomoção ainda é rápida. Mas há mais sede, fome e sono. Uma dica: hora de procurar uma nutricionista. Ninguém melhor do que essa profissional pra orientar sobre alguns alimentos, como café, chimarrão e chás, dos quais ouvimos infinitas histórias de que podem ou não podem ser consumidos.

O segundo trimestre compreende o terceiro ao sexto mês. Quem passou ilesa pela cólica, sangramento e enjoo continua vivendo uma fase gostosa, pois agora a barriguinha começa a ter forma e já dar pra se sentir “mãe-canguru”. Pode aparecer inchaço e a necessidade de não se dormir mais de bruços, pra quem curte essa posição. Tudo vai depender do tamanho da barriga. Uma dica: hora de procurar uma fisioterapeuta. Ninguém melhor do que essa profissional pra fazer uma drenagem linfática (é um tipo de massagem), pois a essa altura do campeonato o nosso corpo já sofreu grandes transformações, principalmente a postura e o eixo-corporal. Aqui a gente nota que não dominamos mais o nosso equilíbrio e o cuidado passa a ser maior, principalmente no trânsito.

O terceiro trimestre compreende o sexto ao nono mês. Fase sem qualquer glamour, pois o cansaço chega de uma hora pra outra, a barriga pesa, o ar começa a faltar, não temos mais roupa adequadas, mas não se desespere, pra tudo há uma solução. Uma dica: antes e durante a gravidez faça algum exercício físico, diretamente recomendado pelo(a) médico(a) que acompanha o pré-natal. Eu fiz até o nono mês caminhada, musculação e alongamento, sob orientação e supervisão médica e de educador físico.

Na verdade, a natureza é sábia e fantástica. Nada se desenvolve sem ser para o bem. Nada se cria sem um propósito. Não existem regras prontas, nem manual da boa gravidez. A vida vai assim, preenchendo as semanas, mostrando seus encantamentos, vai selando relações cósmicas, vai se comunicando pelo astral.

Às vezes não sabemos mais se um pensamento é nosso ou é “dele” ou “dela”. Às vezes não sabemos mais se o acelerar do coração é nosso ou é “dele” ou “dela”. Tudo se mistura, se materializa. E embora papo de gravidez seja coisa de mulher, nada se cria ou se desenvolve sem a presença do pai.

O certo é que quanto mais amor e harmonia houver entre o casal, quanto mais paz e tranquilidade houver durante a gestação, a natureza vai se encarregar dos pormenores, da hora certa, da chegada abençoada, e de todas as emoções que vão inundar o momento mágico do nascimento.

Se for pra engravidar, faça amor.

Fica a dica.


quarta-feira, outubro 30, 2013

O tempo, o trânsito e a despedida

Dizem que percorremos os caminhos que escolhemos, sejam boas ou más escolhas, mas a verdade é que só saberemos o que aprenderemos com elas depois de vivenciá-las.

Fiquei um pouco mais de um ano trabalhando em uma cidade próxima da capital, mais ou menos há uma hora e meia de casa, de carro. Embora exista uma infinidade de pessoas que não gostem de viver no trânsito e não têm a menor paciência com ele, eu sempre gostei de dirigir, principalmente o meu carro.

E já que tinha que me acostumar a perder quase que 3h por dia dentro dele, que fosse da forma mais saudável possível. Por algum tempo apenas ouvia música, percebia a falta de educação de motoqueiros, taxistas e motoristas de ônibus da capital gaúcha, sonhando em um dia acordar com uma brilhante ideia para “educar as pessoas no trânsito”.

Infelizmente, foram longos dias assistindo as maiores atrocidades nas vias públicas gaúchas, em meio a rezas de que eu jamais seria uma daquelas pessoas estúpidas a criar problemas daqueles feitios. Peguei chuva, sol, vento, calor, tempestades, dias nublados, ensolarados, vi caminhões tombados, acidentes recém ocorridos, gastei muita grana nos pedágios e chorei pelas estradas não receberem o devido retorno.

Certa vez, não sei bem ao certo como aconteceu, mas entrou na minha vida os tais audio-books, e também consegui com a minha professora de pilates local (a querida Simone) as melhores palestras de vida que já ouvi, provenientes do meu amigo “Di”, como passei a chamá-lo, depois de tantas conversas pelo caminho. Foram os melhores momentos da minha jornada diária no trânsito. Tinha dias que não queria chegar no trabalho sem antes ouvir o fim de um capítulo, ou ficava em frente a minha casa, esperando o tópico acabar. E foi aí que entendi aquele ditado de que mais vale o percurso da viagem do que a chegada no destino final.

Assim, o trânsito cansativo e angustiante de todos os dias foi perdendo espaço para os meus áudios, que me trouxeram um doce alento durante o caminho. Igualmente, pouco a pouco fui começando a me apaixonar pelo meu local de trabalho, um ambiente de boa harmonia, onde conheci diversas pessoas do bem. Essas sim eram a alegria dos meus dias de trabalho, por mais pesados que eles fossem, por mais problemas que eu tivesse que resolver. Nada se compara ao fato de podermos contar com pessoas sinceras, adoráveis, educadas e inteligentes.

E difícil mesmo foi, depois de pouco mais de um ano, deixar a sala 13, as minhas queridas estagiárias Eniale, Jana e Paty (responsáveis, inteligentes e lindas), a tia Vera e suas guloseimas maravilhosas, as conversas agradáveis de corredor de fórum, as tentativas – todas frustradas – de fazer o cover da cantora Paula Fernandes para a Loiva e a Terê, enfim, tanta gente bacana de se conviver e de se viver, que vai ser difícil nominar. Ali pertinho, também vou sentir saudades das Gabrielas e da Camila, bem como de trabalhar ao lado de uma colega muito especial: a Roberta.

Despedida sempre é um troço ruim, principalmente quando se deixa um lugar muito bom. Mas no meu caso, nunca é tarde para voltar lá e viver outras tantas coisas boas novamente, já que, na minha profissão, é sempre possível voltar atrás em algum lugar do Estado. Pena que, se um dia eu voltar, muita gente boa não estará mais por lá. Por enquanto, o lugar está seguro com o Rodrigo.

Se me perguntarem se valeu a pena desperdiçar praticamente 3h do meu dia dentro de um carro, ter paciência para o engarrafamento na saída e na entrada de Porto Alegre, ter disposição para trabalhar mais 8h por dia, eu digo que faria tudo novamente, principalmente se o “Di” continuasse a me acompanhar.


Às vezes só entendemos porque trilhamos certo caminho um tempo depois. Às vezes, nunca chegamos a entender porque tivemos que percorrê-lo. Mas o principal é poder olhar pra trás e sentir que o dever foi cumprido e, por mais árduo, ainda assim, fomos muitos felizes.

Até logo, Charqueadas querida.

Obs.: "Di" é o apelido carinhoso que dei a Divaldo Pereira Franco, grande homem.

domingo, maio 05, 2013

2013 - o ano de dar valor aos sentidos


Respira fundo, é oxigênio”.

Essa foi a última frase que lembro ter ouvido do anestesista enquanto a sua ajudante segurava o oxigênio próximo da minha boca.
E enquanto respirava fundo, me dei conta que jamais tinha respirado um ar tão puro como aquele, e me concentrei ao máximo para aproveitá-lo, pois sabia-se lá Deus quando eu iria voltar a respirar novamente.

Embora tenha parecido ser uma decisão de última hora, a verdade é que há anos eu adiava a rinoplastia, a tal cirurgia para a correção do meu desvio de septo nasal. Noites e noites sem dormir direito, dias fungando, casacos com diversos lenços de papel pelos bolsos, espirros inusitados, barulhos inconstantes, exaustão.

Após apagar completamente com a anestesia geral, acho que algumas horas depois acordei no caminho da sala de cirurgia para a sala de recuperação, quando então o anestesista fez um pit stop para que a minha tia, minha fiel escudeira do início da minha batalha, pudesse ter notícias minhas e repassar para a minha mãe e meu marido, que chegariam logo após para me acompanhar no restante da minha corajosa jornada.

Lembro que antes de me preparar para a cirurgia o médico me alertou que ao final ele iria enfaixar meus olhos para que o inchaço fosse "menos pior" do que o normal na região dos olhos e dos seios da face, esclarecendo que eu não me preocupasse, pois não poderia abrir os olhos por umas 4h, mais ou menos, situação essa que deveria ser encarada como normal.

Ao ouvir a voz da minha tia e do anestesista conversando entre si e comigo, percebi que não tinha condições alguma de abrir os olhos, mas não sentia qualquer dor no nariz, estava me sentindo bem. Minha tia ainda brincou dizendo que tinham mexido nos meus olhos, como se tivessem trocado a cor deles... eu logo corri na frente e lembro de ter dito: “finalmente terei olhos verdes...”.

Comentário de pessoa anestesiada, óbvio.

O anestesista, mais engraçadinho ainda, disse que teriam ficado azuis da cor do Grêmio e eu, Colorada até a alma, cheguei a sentir uma estranha dor na hora... passageira e extremamente psicológica, claro.

Já na sala de recuperação, a única coisa que sentia era fome, sede e a minha audição ligeiramente aguçada. Ar, só pela boca. Ouvia o ti ti ti do pessoal que trabalhava na sala de recuperação, uns indo para a direita, outros para esquerda. Mesmo com os olhos enfaixados, via uma claridade à minha frente e imaginava que pudesse ser de uma janela.

Foi uma mulher a primeira pessoa que falou comigo na sala de recuperação. Sua voz parecia ser jovem, falava devagar e discretamente, parecia saber o que estava fazendo, percepção essa que me trouxe uma certa segurança. Perguntou como eu estava, eu disse que estava com fome e com muita sede, queria água. Ela logo me alertou dizendo que checaria se eu poderia beber e comer alguma coisa e já voltaria.

Um vazio se fez.

Por um período que não sei precisar quanto ninguém apareceu. Levantei o braço direito, pois era a única maneira de eu me comunicar deitada naquela cama com o rosto todo enfaixado. Alguém parou e perguntou: “está tudo bem?”. “Quero água”, eu disse.

Em seguida veio a mesma moça que falou comigo da primeira vez e me trouxe água em um copo com canudo e um pouco de gelatina. Me ajudou a tomar água, disse que eu bebesse devagar, e depois me ajudou a comer umas duas colheradas de gelatina. A minha fome era de alguma coisa salgada, não doce. E aí ela se despediu, disse que o turno dela estava acabando e me desejou melhoras.

Outro vazio se fez.

Entre uma cochilada e outra eu podia ouvir os funcionários da sala de recuperação conversando sobre banalidades de suas vidas particulares, bem como sobre a falta de leitos para alguns operados, como era o meu caso, que estava aguardando um quarto. E eles também conversavam sobre o estado de saúde de algumas pessoas, não sei se daquelas que estavam na sala de recuperação ou não, o que me deixou um pouco constrangida. Era como se estivessem falando da vida daquelas pessoas que estavam ali, se recuperando de uma cirurgia qualquer, sem qualquer pudor, como se elas não pudessem dizer nada, principalmente ouvir. Eu quis falar, dizer-lhes que não falassem das pessoas,  pois elas poderiam estar debilitadas e, como eu, ouvindo.

Certamente eu parecia não estar ouvindo nada, pois estava - segundo a minha mãe me confidenciou depois, quando então foi-lhe permitida a entrada na sala de recuperação – como uma múmia (com o rosto todo enfaixado).

O tempo passava e a fome e a sede cresciam. Ergui novamente o meu braço direito e uma mão delicada, suave, com a pele hidratada, levemente tocou na minha e perguntou: “O que precisas?”. “Água”. Logo em seguida minha mãe entrou na sala de recuperação e, como uma heroína, me salvou da fome e da sede.

Mãe é mãe, não adianta.

A funcionária trouxe suco de gelatina, gelatina sólida e um iogurte light. Eu só pensava: “pra quê tanta gelatina, que coisa mais enjoativa, manda logo um franguinho grelhado com arroz e purê de batatas”. Daí minha mãe, que adora uma conversa, após me perguntar como eu estava me sentido, começou a me descrever o lugar e as pessoas ao redor, já que eu estava “cega” no momento.

Eu comentei com ela o fato de eu estar ouvindo tudo o que as pessoas estavam conversando e de como havia me sentido ao ouvir falarem dos outros "cirurgiados". E enquanto falava me dava conta que é exatamente isso que todos nós fazemos durante a nossa vida. A única diferença é que eu não estava VENDO, estava apenas OUVINDO e, portanto, CONSTATANDO atenciosamente.

Quantas vezes não fazemos um comentário horroroso sobre alguém minutos depois de ela sair da sala? Quantas vezes não fomentamos uma fofoca grosseira sobre alguém, mesmo quando não temos a menor ideia de que realmente o fato existiu? Por que temos essa necessidade de cuidar da vida dos outros?

Esse foi o meu primeiro choque pós-cirúrgico.

Aquela constatação me partiu a alma.
Quantas vezes eu não teria agido assim? E o pior, sem me dar conta?

Após uma conversa engraçada e divertida com a minha mãe, que me fez rir como uma estátua, ou múmia – como ela mesma me definiu - ela teve que sair e se despedir, um pouco chateada, pois não tinham deixado ela entrar com o celular e ela queria tirar uma fotografia minha para que eu me visse posteriormente. Coisas de Beth, mas eu teria adorado ver essa fotografia. Me contentei com a minha imaginação, que estava mais do que criativa naquela quinta-feira.

E chega uma hora na sala de recuperação que tu tens vontade de levantar da cama e ir pra casa. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas eu já não aguentava mais me “recuperar” da cirurgia. Já tinha tomado água, comido todas as formas da gelatina, conversado com a minha mãe, ouvido as histórias dos funcionários. Já sabia que ainda não tinha um leito livre pra mim.

Foi quando então me deu aquela vontade de fazer xixi. Bah, ergui novamente o braço. Eu tinha duas alternativas: a “comadre”, em que eu iria urinar ali na cama mesmo, sem a menor ideia de como seria “operacionalizada” a coisa, ou esperar mais alguns minutinhos para tirar a faixa dos meus olhos e ser levada até o “banheiro”. Alternativa dois, por favor.

Após longos minutos veio a funcionária com os aparatos e começou a, literalmente, me desvendar. E logo veio o segundo choque pós-operatório.

Ela tirou a faixa e eu não enxergava absolutamente nada.

Pacientemente a funcionária me alertou: “não te preocupas, logo vais voltar a enxergar, a faixa estava pressionando os teus olhos, isso é normal. Eu vou tirar o excesso da pomada que está ao redor”.

Normal?

Normal para mim seria se eu tivesse despertado de um sono qualquer, vendo todas as cores e formas, como acontece todas as manhãs, mesmo que com uma visão um pouco míope.

Fiquei atônica por alguns instantes e pensei: “então é assim que os cegos se sentem?
Que droga.

Primeiro, nada existia. Depois, minha visão ficou esbranquiçada. Aos poucos foi voltando e com ela, a noção de quão importante é ENXERGAR nesta vida. Mas é engraçado como eu estava “VENDO” toda essa situação sem “ENXERGAR”.

Muitas vezes na vida nós vemos, mas não enxergamos.

A primeira coisa que enxerguei quando vi novamente foi a janela à minha frente. De fato havia uma janela. Mas eu a imaginava pequena, enquanto ela percorria todo um corredor, dava para a frente do hospital, e eu já podia ver que o sol estava se pondo, em um lindo fim de tarde. Os raios de sol cruzavam a faixada do prédio do outro lado da rua e eu avistava algumas árvores - a cena era incrivelmente colorida.

Nesse instante, nesse exato instante, eu agradeci a Deus por ENXERGAR, por OUVIR, por SENTIR, por PENSAR e, por num futuro bem próximo, voltar a RESPIRAR novamente.

Depois de “recuperada” e de um leito vago, fui descansar em outro andar, quando então minha mãe e meu marido passaram a me acompanhar no restante da minha inusitada empreitada.

Nenhuma dor no nariz, nenhuma complicação. Apenas um congestionamento nasal pesado, respiração pela boca, visão turva da miopia e da impossibilidade de usar meus óculos ou minhas lentes de contato, cansaço da cirurgia, e muita coisa para dialogar comigo mesma.

Silêncio.
Momentos de paz.

Fiquei apenas uma noite no hospital e no outro dia já estava liberada para ir para casa. Muitas ligações, mensagens pelo celular, mimos e carinhos da família e amigos. Hematomas pelo rosto (faz parte da rinoplastia a que me submeti), o ar voltando aos pouquinhos a habitar o meu nariz, agradecimentos ao meu médico, Dr. Júlio Stédile Ribeiro, ao anestesista Gustavo (que ressurgiu de um ponto do passado de Garopaba), à equipe do Hospital Mãe de Deus, à minha tia Zéca, à minha mãe Beth e ao meu marido Paul.

Ainda não estou com o nariz 100% funcionando e o meu rosto ainda está qualquer coisa inchado e roxo. Ossos do ofício. Primeira batalha, vencida.

Contudo, estou reaprendendo a respirar, instruindo a visão, aprendendo a ouvir, renovando o sentir. Segunda batalha, em exercício.